Lafaiete perde Léa Franco Martins, educadora, conselheira e segunda mãe de tantas vidas
Professora, inspetora regional de Educação, católica fervorosa, apaixonada pela boa política e uma das mulheres mais admiradas da história de Lafaiete, Léa Franco Martins deixa um legado de amor ao próximo, educação, acolhimento e solidariedade que continuará vivo por muitas gerações.
Algumas pessoas fazem parte da história de uma cidade. Outras ajudam a escrever a história das pessoas. Léa Franco Martins fez as duas coisas.
Quem teve o privilégio de conhecê-la dificilmente a descreve por um único papel. Foi educadora, inspetora regional de Educação, servidora pública, conselheira, líder comunitária, mulher de profunda fé e uma apaixonada pela política entendida em seu sentido mais nobre: o de cuidar das pessoas.
Durante décadas, educou crianças, orientou professores e formou cidadãos. Mais tarde, levou essa mesma vocação para a administração pública, onde coordenou a área que hoje corresponde à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. Nunca ocupou um cargo apenas para administrá-lo. Fez dele um instrumento para servir.
Sua casa era uma extensão desse compromisso.
Políticos de diferentes gerações buscavam seus conselhos. Não importava partido, mandato ou posição. Dona Léa tinha o raro dom de ouvir antes de falar. Analisava, ponderava, orientava. Era uma bússola para quem compreendia que a experiência vale mais do que o impulso. Gostava da política porque acreditava que ela existia para melhorar a vida das pessoas.
Mas talvez nenhuma de suas obras tenha sido tão bonita quanto aquela que realizava longe dos olhos da cidade.
Dona Léa acreditava que ninguém deveria deixar de formar uma família por falta de dinheiro. Ao longo da vida, organizou centenas de casamentos de casais humildes. Conseguia documentos, mobilizava amigos, providenciava a igreja, buscava o vestido da noiva, reunia padrinhos e fazia questão de entregar o enxoval completo para que aqueles novos lares começassem com dignidade. Não celebrava apenas casamentos. Ajudava a construir famílias.
A mesma delicadeza aparecia em incontáveis outros gestos.
Durante anos, alimentos vindos da fazenda da família seguiram, quase diariamente, para a mesa de pessoas que passavam necessidade. Leite, verduras, frutas e mantimentos chegavam às casas sem alarde, sem fotografia e sem qualquer interesse em reconhecimento. Ela fazia questão de que ninguém comentasse.
Sua vida parecia traduzir, todos os dias, a passagem do Evangelho segundo São Mateus: “Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita.” (Mt 6,3)
Era exatamente assim que Dona Léa entendia a caridade. O bem não precisava de plateia.
Na família, construiu sua maior riqueza. Deixa os filhos Tarciano Franco, Sandro Del Franco Martins e Leonam Franco, as noras, netos e bisnetos, que herdaram muito mais do que um sobrenome. Herdaram valores, princípios e um exemplo raro de humanidade.
Seu amor, porém, nunca conheceu limites impostos pelo sangue.
Durante um período difícil vivido pela família, acolheu o sobrinho Glaycon Franco e seus irmãos como filhos. Mais do que acolher, foi mãe de leite de Glaycon. Alimentou aquele menino quando ele ainda dava os primeiros passos na vida. Um gesto que criou um vínculo indissolúvel entre os dois. Ela ajudou a lhe dar a vida, mas também ajudou a lhe ensinar como vivê-la.
Foi sua grande educadora. Sua conselheira. Sua referência. Sua segunda mãe.
Ao longo dos anos, Glaycon jamais deixou de reconhecer publicamente a influência decisiva que Dona Léa exerceu sobre sua formação humana. Muito do homem, do médico e do líder político que se tornou nasceu dos ensinamentos recebidos daquela mulher miúda, elegante e extraordinária.
Na despedida, resumiu aquilo que palavras dificilmente conseguem explicar.
“Era minha tia de sangue, mas Deus me deu o privilégio de chamá-la de segunda mãe. Nunca nos tratou como sobrinhos. Nos fez sentir filhos. Foi minha grande orientadora, minha bússola e uma das pessoas que mais influenciaram a minha formação humana.”
Com a partida de Léa Franco Martins, Lafaiete perde uma de suas maiores damas.
Perde uma educadora que formou gerações. Uma cristã que viveu o Evangelho sem fazer propaganda da própria fé. Uma mulher que aconselhou líderes, alimentou famílias, organizou centenas de casamentos, distribuiu enxovais, acolheu crianças como filhos e transformou a solidariedade em um modo de viver.
Há pessoas que deixam saudade.
Dona Léa deixa uma cidade melhor do que encontrou.
E esse talvez seja o maior legado que um ser humano pode oferecer ao mundo.
Nota da Redação:Nossos sinceros sentimentos aos amigos filhos de Dona Léia Franco,Dr.Sandro,Tarciano e Leonan e sobrinhos.


